Apostas em crédito de carbono animam o mercado

Mercado europeu cresceu 68% em 2020 sobre 2019, com transações de US$ 252 bilhões George Wachsmann, da Vitreo: perspectivas positivas, mas ativo ainda tem o dobro da volatilidade da bolsa
Claudio Belli/Valor
Os fundos de investimento que aplicam em créditos de carbono surgiram na esteira do crescimento das estratégias ligadas aspectos ambientais, sociais e governança (ESG) no Brasil. Recentemente lançados no mercado local, eles visam ganhar com a tendência de alta da cotação de créditos de carbono.
O preço da tonelada do carbono no mercado regulado europeu (EU UTS), o principal do mundo, vem subindo por conta da expectativa de endurecimento dos limites para emissão de gás carbônico (CO2) e outros gases do efeito estufa (GEE) por parte de países europeus. Em julho, a tonelada de CO2 estava sendo negociada por cerca de € 50, o dobro de um ano atrás. Em termos de volume negociado, o crescimento do mercado em 2020 foi de 68% em relação a 2019 (com transações de US$ 252 bilhões). A China recentemente anunciou a criação do próprio mercado, o que deve dar novo impulso às transações com créditos de carbono.

É no mercado europeu que Safra Direct Carbono, Vitreo ESG Carbono Neutro e XP Trend Carbono Zero investem. Até agora, o Brasil só conta com o mercado voluntário, no qual as empresas não são obrigadas a reduzir as suas emissões de CO2. Já o mercado regulado é regulamentado pelos governos com base em metas ligadas ao Acordo de Paris – por conta disso, é mais transparente e desenvolvido.
A partir das metas nacionais de redução dos gases poluidores, os governos estabelecem submetas de emissões máximas para setores econômicos e empresas. Por meio de leilões, essas empresas adquirem direitos ou permissões para emitirem CO2 em suas atividades. Companhias que extrapolam as metas e poluem mais que o permitido são multadas ou obrigadas a comprar créditos de carbono daquelas que emitiram menos do que podiam. Cada crédito equivale a uma tonelada de CO2 que deixou de ser lançada na atmosfera.
O mecanismo visa incentivar que as empresas invistam na descarbonização, viabilizando o cumprimento das metas do Acordo de Paris. “Se o crédito de carbono se tornar muito caro, as companhias terão incentivos para investir em modelos de produção menos poluentes”, resume Beatriz Vergueiro, responsável por produtos ESG da XP Inc.
Para que a descarbonização vá em frente, os governos devem se tornar mais exigentes, endurecendo as regras: “A expectativa é que os governos reduzam as permissões para emissão de CO2 mais rapidamente do que as empresas consigam adaptar seus processos produtivos para emitir menos CO2 ”, explica Gustavo Pinheiro, coordenador do portfólio de economia carbono zero do Instituto Clima e Sociedade (ICS). A menor oferta e a maior demanda provocariam alta das cotações do carbono.
É justamente nessa tese – que pressupõe não só a continuidade do processo de descarbonização das principais economias europeias, mas o seu aprofundamento – que os três fundos de crédito de carbono apostam. “Esses fundos podem ser interessantes para os investidores interessados na temática ESG e para a diversificação do portfólio, já que eles têm baixa correlação com investimentos no Brasil, tanto de renda fixa quanto de renda variável”, afirma Bruno Bonini, superintendente geral de distribuição e produtos do Safra Asset Management.
Lançados em maio, os fundos do Safra estão com patrimônio de R$ 28 milhões. O Safra Direct Carbono Reais tem proteção cambial e a sua rentabilidade depende apenas da variação da cotação futura do crédito de carbono, ou seja, a alta ou baixa do real não impacta na rentabilidade. No Safra Direct Carbono USD, não há hedge e as cotas refletem também a variação cambial. Os fundos investem apenas em futuros de crédito de carbono do mercado europeu.
Já o Trend Carbono Zero, da XP, tem exposição também ao mercado americano. Ele replica o comportamento do ETF (fundo de índice listado em bolsa) KraneShares Global Carbon (KRFN), que, por sua vez, replica o índice IHS Markit Global Carbon Index. Este é composto por contratos futuros de crédito de carbono negociados nos Estados Unidos (25%) e na Europa (75%). Lançado em junho, o Trend Carbono conta com proteção cambial e patrimônio aproximado de R$ 14 milhões.
O Vitreo ESG Carbono Neutro investe por meio do índice MO Future (MOZ21.NYM). George Wachsmann, sócio da Vitreo, diz que as perspectivas são positivas porque a demanda por créditos de carbono está aumentando mais rapidamente do que a oferta. No entanto, ele nota que se trata de um ativo com o dobro da volatilidade da bolsa brasileira (que, nos últimos 6 meses, ficou em torno de 17%) e que por isso deve representar uma pequena parcela do portfólio do investidor. Lançado em abril, o produto está com patrimônio de R$ 16 milhões e não conta com proteção cambial.

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