BC estuda projeções do mercado para a inflação superiores às estimativas da autoridade, diz Campos

“Temos revisitado a modelagem”, disse o presidente do Banco Central em evento nesta sexta-feira O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, afirmou nesta sexta-feira (03) que a autoridade monetária tem “estudado bastante por que o mercado está com [projeções] de inflação de 2022 mais altas” do que a do próprio BC.

“Temos revisitado a modelagem”, disse em evento promovido pelo jornal “O Estado de S. Paulo”. Ele afirmou que as expectativas do mercado “estão se elevando bastante” para 2021, o que “tem influenciado 2022 também”.
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Campos reforçou que a autoridade monetária perseguirá as metas de inflação. “O BC tem passado a mensagem que vai perseguir a meta no horizonte relevante”, disse, destacando a aceleração da inflação em 12 meses e da média dos núcleos inflacionários, mais sensíveis à política monetária e à atividade econômica. “Precisamos combater isso, é o que temos comunicado.”
Segundo Campos, com a exceção da Turquia, o Brasil é o país em que a subida de juros tem sido realizada “da forma mais intensa”.
Ele lembrou que o BC vem enfrentando um cenário de inércia inflacionária (o quanto a inflação passada atinge a futura) e alta da inflação de serviços, por exemplo.
“Precisamos entender um caso mais recente [do preço] da carne, qual vai ser o desfecho disso” afirmou também.
Campos voltou a alertar para os riscos da crise hídrica, mas disse que o BC entende que o caso “é mais uma questão de preço do que de racionamento”.
O presidente ainda revelou que o BC abordará “um pouco mais” da discussão sobre o hiato do produto, uma medida de ociosidade da economia, no Relatório Trimestral de Inflação a ser divulgado no fim do mês. De acordo com Campos, “talvez isso explique um pouco a diferença” entre o que o BC calcula de inflação para a frente e o que o mercado calcula.

Crédito
No evento, Campos também destacou que, após o forte crescimento do ano passado, a expansão do crédito agora tende a diminuir.
Campos também afirmou que a “figura [da pandemia] para o Brasil tem melhorado bastante”.
“Já passamos os Estados Unidos em número de primeira dose, vamos passar a segunda em breve.” Segundo ele, em “grande parte dos emergentes” a atividade econômica já está “no nível pré-pandemia ou acima”. Mas Campos reconheceu que a variante delta do coronavírus “é uma preocupação para todo mundo”.
Em relação ao consumo das famílias nos Estados Unidos, Campos avalia que os indicares apontam para recuperação, como resultado dos programas do governo americano.
“Podemos dizer com firmeza que surpresas inflacionárias têm todas sido para cima em grande parte do mundo.”
PIB
Segundo ele, o crescimento do Brasil em 2021 “está na média ou até um pouco acima da média” em relação a outros países. Mas Campos reconheceu que estão sendo feitas revisões para baixo pelo mercado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do ano que vem e inclusive deste ano, depois da divulgação nesta semana de um resultado pior do que o esperado no segundo trimestre.
Ele afirmou que o PIB brasileiro está “em níveis pré-pandemia”. “O mais importante agora é olhar para a frente.”
Campos disse que, “em termos de emprego, temos dois índices que contam histórias diferentes”: o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). O primeiro está “mais forte”, enquanto o segundo mostra um “desemprego alto”.
“Achamos que [o quadro do emprego] está mais próximo do Caged”, disse.
Segundo o presidente do BC, os dados de alta frequência que medem a atividade econômica “mostram crescimento na ponta”, enquanto os índices de mobilidade têm uma “volta forte”.
“É uma recuperação que vai ser mais lenta, precisamos olhar isso com bastante cuidado, mas de forma geral é uma recuperação”, disse.
Ainda sobre o Brasil, o presidente afirmou que “grande parte dos problemas” que a autoridade monetária encontrava para implantar o real digital “já estão resolvidos”.
A respeito do quadro externo, Campos destacou que o BC vem discutindo o impacto que a elevação de juros em países desenvolvidos pode ter sobre os emergentes. Outro “grande exercício” é saber quanto da inflação do produtor no mundo passará para consumidor.
Os dados mais recentes mostram que a piora dos gargalos na economia mundial “se intensificou”, mas ele voltou a afirmar que há uma dúvida se a aceleração inflação mundial está ligada a gargalos ou a mudanças estruturais no consumo.

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