Transição para economia de carbono zero é urgente, mas terá custos elevados, dizem BCs
Para o diretor-geral adjunto do BIS, “todas as reformas estruturais implicam enormes desafios na questão distributiva” A transição para uma economia de carbono zero é urgente, mas terá custos sociais e econômicos elevados. Justamente por isso, essa transição exige planejamento e a implantação de políticas públicas, na avaliação de representantes de bancos centrais que participaram nesta quinta-feira do seminário ‘Sustentabilidade no 50º Ciclo de Reuniões do Mercosul Financeiro’. O evento foi promovido pelo Banco Central (BC) do Brasil.
“O desafio é muito grande, mas as coisas precisam ser colocadas em cima da mesa com grau de ambição”, disse o diretor-geral adjunto do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), Luiz Awazu Pereira. O BIS é uma espécie de Banco Central dos bancos centrais.
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Para Awazu, “todas as reformas estruturais implicam enormes desafios na questão distributiva”. No caso da transição para uma economia verde, não será diferente. De acordo com ele, essa transição precisará necessariamente “ter mudanças relativas” de preços, o que normalmente gera debates distributivos.
Leo Pinheiro/Valor
O diretor do BIS destacou que mudanças climáticas “afetam desproporcionalmente” não só os países mais pobres, mas também os lares mais pobres. Segundo ele, antes que se concretizem no prazo mais longo os benefícios do combate às mudanças climáticas, serão necessárias “medidas de transferência de emprego para acompanhar grupos mais vulneráveis”.
Além disso, Awazu afirmou que a combinação entre os setores financeiro e público para financiar as mudanças necessárias terá “papel chave” nesse processo. A transição exigirá ainda “recursos financeiros e tecnológicos que muitos países não possuem”, o que tornará necessária a colaboração internacional, segundo ele.
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Vice-presidente do Banco da Espanha, Margarita Delgado também destacou a importância das políticas públicas no processo, afirmando que 80% das empresas espanholas estarão sujeitas a risco nessa transição, por causa de sua dependência de carbono. Esse fator, de acordo com ela, poderá se materializar na forma de riscos para a estabilidade financeira. Para Margarita, serão importantes programas que tornem as moradias mais sustentáveis e que ajudem pequenas e médias empresas durante a transição.
O próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto, relatou em evento virtual na semana passada que, nas reuniões que realizou com banqueiros centrais e outras autoridades em Washington (EUA) recente, foi levantada a questão de que a “transição para um mundo verde” pode não ser “tão simples quanto pensávamos”. “Precisamos pensar na velocidade e em como fazer”, afirmou Campos na ocasião.
Em sua participação no seminário desta quinta-feira, a diretora de assuntos internacionais e gestão de riscos corporativos do BC, Fernanda Guardado, voltou a destacar que a questão climática poderá afetar a estabilidade de preços e financeira. Portanto, é essencial que as autoridades monetárias levem esse fator em consideração para cumprirem seus mandatos, segundo ela.
Fernanda destacou que choques climáticos já têm afetado a inflação, citando os impactos do El Niña e La Niña na América do Sul. Ela também afirmou que as mudanças climáticas podem ter impactos sobre a “produtividade, crescimento econômico e quiçá a taxa neutra de juros da economia” – a taxa de juros que não acelera e nem desacelera a inflação.

