BC revisa projeção de déficit em conta corrente em 2021 para US$ 30 bi
Segundo a autoridade monetária, a revisão reflete, principalmente, a expectativa de menor saldo da balança comercial, com aumento das importações A previsão de déficit em conta corrente esperado para 2021 no Brasil aumentou de US$ 21 bilhões para US$ 30 bilhões (ou 1,8% do Produto Interno Bruto – PIB) entre o Relatório de Inflação do Banco Central (BC) de setembro e o de dezembro. A autoridade monetária também elevou sua estimativa de déficit nas transações correntes em 2022, de US$ 14 bilhões para US$ 21 bilhões (ou 1,3% do PIB)
Segundo o BC, a revisão para 2021 reflete, principalmente, a expectativa de menor saldo da balança comercial (de US$ 43 bilhões para US$ 35 bilhões), com aumento das importações.
O aumento no valor projetado para as importações (de US$ 239 bilhões para US$ 249 bilhões) está associado a surpresas no crescimento dos preços dos bens importados, diz a autoridade monetária.
A dificuldade das cadeias de suprimento globais em atender à demanda tem apresentado duração maior que a esperada anteriormente, com impacto nos preços. As surpresas altistas no valor importado estão razoavelmente disseminadas nos bens intermediários, com destaque para fertilizantes, cujos preços exibem alta acentuada nos últimos meses. A importação de combustíveis também segue em ritmo forte, em ambiente de crise hídrica doméstica e preços internacionais elevados, aponta o relatório.
Nas exportações, manteve-se a previsão de valor recorde – com ligeiro aumento de US$ 282 bilhões para US$ 284 bilhões -, refletindo o patamar ainda elevado dos preços das commodities no ano, apesar de retração no preço de alguns produtos nos últimos meses, em especial do minério de ferro, nota o BC.
Houve novamente ligeira melhora no cenário para as vendas internacionais de produtos manufaturados, que devem terminar o ano em patamar semelhante ao de 2019, com destaque para óleos combustíveis. As exportações de semimanufaturados também apontam para valor elevado em 2021, com destaque para os preços dos produtos de ferro e aço.
Na conta de serviços, o BC manteve a projeção de déficit (US$ 17 bilhões) abaixo dos níveis pré-pandemia, resultado de retorno lento das viagens internacionais. Destaque também para as menores despesas com aluguel de equipamentos no setor de petróleo, consequência da nacionalização de plataformas de petróleo no âmbito do Repetro, observa.
Na renda primária, a melhora da lucratividade das empresas refletiu-se nas despesas líquidas de lucros e dividendos – cuja previsão de déficit passou de US$ 27 bilhões para US$ 29 bilhões -, também impactadas pela incorporação de informações mais recentes na revisão ordinária anual das estatísticas do setor externo. Com isso, houve ligeiro aumento no déficit esperado para a renda primária como um todo, de US$ 49 bilhões para US$ 51 bilhões.
Por fim, a projeção para investimentos diretos no país (IDP) foi reduzida para US$ 52 bilhões (3,2% do PIB), de US$ 55 bilhões. Apesar da recuperação na participação de capital estar em linha com o previsto, as amortizações das operações intercompanhia têm sido maiores do que previamente esperado, diz o BC.
Para os investimentos em carteira, manteve-se a projeção para o ano (US$ 21 bilhões), que deve registrar entradas líquidas pela primeira vez desde 2015, reforça o relatório.
O aumento do diferencial de juros do Brasil em relação às economias avançadas aumenta a atratividade dos instrumentos de dívida locais, atraindo fluxos estrangeiros para títulos emitidos no país. Por outro lado, o investimento estrangeiro em ações de empresas brasileiras tem diminuído nos últimos meses, possivelmente impactado pelas incertezas fiscais e pela queda recente dos preços das commodities, afirma.
No caso de 2022, o motivo para a revisão foi a expectativa de saldo comercial menor, alterado de US$ 60 bilhões para US$ 52 bilhões. A piora no valor esperado para as exportações reflete a recente deterioração nos preços de minério de ferro e petróleo. A perspectiva de volume embarcado desses dois produtos também foi reduzida, em linha com expectativas menores de produção doméstica, diz o relatório.
A projeção de exportações foi revista de US$ 289 bilhões para US$ 276 bilhões. Para as importações, o recuo da projeção, de US$ 229 bilhões para US$ 225 bilhões, reflete, principalmente, atividade doméstica mais fraca do que esperado anteriormente, segundo o BC.
Ainda no âmbito das importações, mantém-se a perspectiva de que, diferentemente de 2021, não haverá valores expressivos de operações fictas no âmbito do Repetro em 2022, acrescenta.
Na conta de serviços, houve manutenção da projeção de déficit de US$ 26 bilhões, ante um resultado negativo de US$ 17 bilhões previsto para este ano. O aumento do déficit esperado em relação a 2021 reflete a retirada gradual das restrições às viagens internacionais, com impacto nas contas de viagens e transporte de passageiros. Todavia, devido aos riscos associados à covid-19, essas contas ainda devem apresentar, na média do ano, patamar inferior ao pré-pandemia, diz o BC.
Na conta de renda primária, espera-se resultado semelhante ao de 2021: déficit de US$ 50 bilhões (ante -US$ 51 bilhões no relatório de setembro) em 2022, vindo de um déficit de US$ 17 bilhões neste ano.
As despesas com juros devem ser ligeiramente maiores do que se esperava no RI anterior (de -US$ 24 bilhões para -US$ 26 bilhões), resultado do aumento do custo de financiamento e de condições financeiras mais restritivas no Brasil, aponta o BC.
Já a projeção das despesas líquidas com lucros foi marginalmente revisada para baixo (de -US$ 27 bilhões para -US$ 24 bilhões), dado o cenário menos favorável para as commodities e para a atividade doméstica, acrescenta.
Entre os principais passivos da conta financeira, manteve-se a projeção de ligeiro aumento do investimento direto no país (IDP) em relação a 2021, de US$ 52 bilhões para US$ 55 bilhões. Mas a projeção anterior para 2022 era de US$ 60 bilhões.
Ainda assim, nesse cenário, aponta o BC, o IDP medido como porcentagem do PIB se situa próximo à sua média histórica: 3,2% em 2021 e 3,3% em 2022. A evolução da pauta de privatizações e concessões pode contribuir para os fluxos de participação no capital, que devem ganhar importância no total do IDP.
Para os investimentos em carteira, houve redução na projeção de entradas líquidas (de US$ 23 bilhões para US$ 11 bilhões), em linha com elevado nível atual de incerteza econômica doméstica, segundo o BC.
Por outro lado, o diferencial de juros deve continuar sendo o principal fator de atração de capital para os títulos no país, ainda que mitigado à medida que decorre o processo de normalização monetária nas economias avançadas, afirma.
De forma geral, conclui o relatório, a atualização das projeções continua refletindo cenário favorável das contas externas.
O déficit em conta corrente deve se manter em patamar relativamente baixo, refletindo o saldo comercial ainda significativo e o patamar contido dos déficits em serviços e rendas. Os investimentos diretos, por sua vez, devem continuar em volumes relevantes, diz a autoridade monetária.
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