Argentina deve se associar a programa de obras chinês
O presidente argentina, Alberto Fernández, assina em Pequim nesta semana adesão à BRI A Argentina deve se tornar a primeira grande economia da América Latina a aderir à Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI, na sigla em inglês), o grande projeto da China para financiar infraestrutura e ampliar sua influência pelo mundo. A Central Nuclear Atucha III, cujo contrato de construção foi firmado ontem e será o primeiro investimento chinês em energia atômica na América Latina, é parte dessa agenda (leia Buenos Aires faz acordo por usina nuclear chinesa).
A adesão da Argentina à BRI – também conhecido como Nova Rota da Seda – deve ser assinada nesta semana pelo presidente Alberto Fernandez, que viajou a Pequim para a abertura da Olimpíada de Inverno, na sexta-feira.
“Serão firmados acordos para ao menos 25 projetos, na maioria planos de infraestrutura, que incluem obras de ampliação e reforma de linhas ferroviárias, além de programas de transporte, projetos de eletrificação, planos de instalação de uma planta industrial papeleira e outros que ainda aguardam homologação”, disse a diretora-executiva da Câmara Argentina-Chinesa de Produção, Indústria e Comércio, Alejandra Conconi.
Ela não citou valores envolvidos, mas ressaltou a importância das obras. “A maioria dos projetos será realizada no interior de províncias com pouco desenvolvimento econômico e onde mais faltam empregos”, disse. “De modo geral, o avanço do comércio bilateral com a China será um grande incentivo para as economias regionais.”
Com grande dificuldade para financiar obras, o governo argentino vê na adesão à BRI uma oportunidade de sair do imobilismo que tem ampliado o desgaste político. E, diferentemente do caso que envolve a renegociação da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI), as negociações com Pequim têm o apoio da ala kirchnerista do governo de Fernández.
Mas poucos analistas apostam que a China esteja disposta a despejar grande quantidade de dinheiro no país, como fez, por exemplo, entre 2007 e 2015 – durante o mandato de Cristina Kirchner, hoje vice de Fernández.
“Os acordos bilaterais da BRI muitas vezes envolvem laços pessoais entre líderes, com implicações em campos como educação, por meio de cooperação técnica ou vínculos culturais”, disse a diretora do Programa Ásia e América Latina do Inter-American Dialogue, de Washington, Margaret Myers.
“A adesão, agora, deve significar algum apoio adicional para projetos que estão sendo considerados há algum tempo, incluindo a expansão do projeto solar Cauchari [na Província de Jujuy, noroeste do país], um acordo de energia nuclear e rádio-isótopos medicinais e alguns projetos no tipo de indústrias de alta tecnologia que são de interesse crescente para a China”, afirmou Myers. “Mas os bancos da China têm sido menos receptivos com capital para projetos de grande escala do que já foram antes.”
Até agora, 19 países da América Latina aderiram à BRI. Mas nenhuma das quatro maiores economias da região – Brasil, México, Colômbia e Argentina – tinha formalizado participação na iniciativa.
Desde 2013, a BRI financiou entre US$ 1 trilhão e US$ 1,3 trilhão em projetos de infraestrutura, principalmente por meio de empréstimos. Os EUA veem a iniciativa chinesa – que elevou muito o endividamento dos países com Pequim – com grande desconfiança.
“Ainda é cedo para dizer que benefícios a adesão à BRI trará à Argentina”, disse o cientista político e diretor-executivo do Observatório Sino-Argentino, Patricio Giusto. “Mas o custo político imediato deve ser bem alto. Os EUA têm feito forte pressão para que os países da região não participem do programa chinês. E é importante lembrar que a Argentina ainda está envolvida em discussões com o FMI.”
“Não sabemos também em quais outros projetos exatamente os chineses estariam dispostos a investir, ainda que o rascunho do memorando de adesão tenha sido enviado pela China há mais de um ano e a Argentina, até agora, não revelou seu conteúdo”, afirmou Giusto. “Não sabemos até que ponto os chineses estão dispostos a investir nem se a Argentina fez algum pedido específico.”
Ele afirma, porém, que a agenda deve incluir alguns outros projetos tão estratégicos e sensíveis quanto o da quarta central nuclear argentina. Entre elas, estão a retomada das obras de duas centrais hidrelétricas – paralisadas desde 2020, quando a Argentina suspendeu o pagamento aos chineses por falta de dinheiro – na represa de Santa Cruz [sul da Argentina] e acordos de cooperação no setor de lítio e eletromobilidade. “É provável que todos os contratos estejam vinculados a uma cláusula de ‘cross default’, ou seja, se algum deles tiver o pagamento suspenso, todos param”, disse.

