Apesar de surpresas negativas, Santander vê desinflação a partir de maio

Expectativa do banco é que IPCA do mês fique acima de 1%, maior que a prévia de março A leitura do IPCA-15, divulgada hoje, voltou a surpreender o mercado ao vir com alta de 0,95%, acima do 0,85% da mediana das previsões. A expectativa para o índice cheio no fim do mês e em abril é ainda mais alta, acima de 1%. Mas o economista do Santander Daniel Karp explica que ainda há elementos para acreditar que o ritmo da inflação vai diminuir no país a partir de maio.
“Ainda não vimos o grosso no impacto da guerra no IPCA, que deve ser mais notado no fim de março e em abril. Mas dá para continuar esperando um processo desinflacionário. Desde o ano passado, todo mundo vinha errando o pico da inflação e nós [do Santander] entramos com o argumento de que a inflação iria entrar num platô, no sentido de que ela ficaria girando em torno de 10,5% [no acumulado de 12 meses] de novembro até abril desse ano. Eu continuo com essa visão, mesmo com as surpresas pra cima”, afirmou Karp em conversa com o Valor.
No IPCA-15 divulgado hoje, acumulado os últimos 12 meses, o índice teve alta de 10,79%, o maior resultado em 12 meses desde fevereiro de 2016. O resultado ficou acima da mediana das estimativas do Valor Data, que era de 10,67%.
“Em maio a gente deve ter uma leitura negativa [deflação] no IPCA mensal e isso vai ajudar a ver o pico mais claramente em abril. É possível que a inflação anual chegue até mais perto de 11%. Mas em maio deve ir para algo próximo de 9,5% e daí em diante continuar desacelerando ao longo do ano”, disse Karp.
Na avaliação do economista do Santander, a maior contribuição para que a inflação reduza o ritmo finalmente em maio será a mudança da bandeira de escassez hídrica nas contas de energia. Ele acredita que a melhora das condições hidrológicas dos reservatórios possibilite um retorno à bandeira verde.
“Isso a guerra não mudou. Em maio, seguimos convictos que a bandeira vai cair do máximo que ela está agora, que é a bandeira nova de escassez hídrica, e ela vai pra verde. Isso deve dar um impacto positivo para o IPCA mensal e anual em maio”, comentou.
Apesar da perspectiva de melhora a partir de maio, o Santander já elevou recentemente a projeção de inflação para o fim desse ano de 6% para 7,1% e os economistas do banco estão em alerta para possíveis alterações no cenário em caso de piora nas condições devido a guerra entre Rússia e Ucrânia.
“Depois da guerra, nossa projeção de inflação foi de 6% para 7,1%. É pior, com certeza, e ainda tem um risco pra cima, mas é o início de uma desinflação que acreditamos que continuará ao longo do ano que vem, inclusive porque a tendência é que a política monetária comece a fazer mais efeito.”
Ele admite que, embora os economistas se esforcem para dar previsibilidade ao cenário econômica, é difícil antecipar os desdobramentos da guerra. “A gente evita um pouco fazer call nesse sentido porque, de fato, temos pouca visibilidade sobre esse assunto. O que fazemos é projetar o cenário de commodities, que é o principal canal que pode mudar as nossas estimativas”.
Nesse sentido, o contexto inserido no cenário desenhado pelo Santander é o de que os efeitos da guerra não piorem em relação aos que estão presentes no momento. “Estamos assumindo que o [barril de] petróleo ficará perto de US$ 115 até o fim do ano e caia ao longo do ano que vem. Para os grãos, um movimento parecido”, disse.

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