Huawei se prepara para corrida das blockchains e moedas digitais dos BCs

Gigante chinesa participa de testes do yuan digital, que soma 261 milhões de carteiras Raffensperger, da Huawei: tecnologia para diferentes usos do dinheiro digital
Divulgação
Gigante chinesa das telecomunicações, a Huawei esteve no centro de uma das maiores disputas comerciais internacionais envolvendo a adoção do 5G na telefonia. Agora, volta-se para a tecnologia blockchain de serviços financeiros em nuvem que darão suporte às versões criptografadas de moedas nacionais, como o real digital.
“Essa tecnologia traz inúmeras oportunidades de produtos e serviços financeiros, permite pagamentos envolvendo equipamentos conectados, facilita transações entre fronteiras, mas envolve um ecossistema diferente de distribuição e ainda há questões em aberto para se endereçar em relação a privacidade, sigilo bancário, segurança e gestão de dados das transações”, disse Ron Raffensperger, CTO de serviços financeiros da Huawei Technologies, em entrevista ao Valor. O executivo veio ao Brasil falar sobre a experiência chinesa de CBDC, como são chamadas as moedas digitais soberanas.
A Huawei é a segunda maior provedora de serviços de nuvem na China, atrás do Alibaba, e está entre os maiores players globais, junto de AWS (Amazon Web Services), Google e Microsoft Azure. No Brasil, tem cerca de mil colaboradores, atende 15 bancos e está entre as três maiores do segmento.
Na China, a Huawei participa desde 2019 dos testes do yuan digital, a experiência mais avançada de tokenização de uma moeda soberana, que já chega a 261 milhões de carteiras digitais pessoais. Apesar de ter banido mineração e transações com bitcoin, a China se apropriou da tecnologia para desenvolver sua própria moeda digital, iniciativa vista como reação dos bancos centrais à ameaça das criptomoedas de desintermediação financeira e contrária à intervenção do Estado na economia.
Na China, já foram feitas até maio 264 milhões de transações, somando 83 bilhões de yuans (US$ 12,3 bilhões). O número de estabelecimentos comerciais autorizados a receber moeda digital, no entanto, é de apenas 4.567.
A Huawei atua com o banco central da China (PBoC, na sigla em inglês) em duas frentes na implementação do e-yuan, segundo Raffensperger. A primeira visa garantir escalabilidade de bilhões de transações com segurança. A outra tarefa foi fazer o design da rede de distribuição da moeda, por meio de uma blockchain fechada, mas que funciona de forma permissionada para acesso dos participantes dos arranjos financeiro e de pagamento.
No modelo de CBDC chinês há dois tipos de moeda digital: uma para atacado e outra para varejo, com diferentes escopos e responsabilidade sobre segurança e compliance – semelhante ao que ocorre nos arranjos envolvendo criptomoedas.
No atacado, o relacionamento é entre o banco central – emissor da moeda e provedor das carteiras digitais – e sete grandes bancos, que são os distribuidores dos tokens e responsáveis pela prevenção à lavagem de dinheiro e políticas de KYC (sigla de “conheça seu cliente”).
No varejo é onde acontecem pagamentos e transações envolvendo instituições de pagamento e bancos de menor porte com os consumidores finais, empresas e estabelecimentos comerciais. São esses sete grandes bancos que se conectam com os demais intermediários para fazer a distribuição da moeda digital.
Na avaliação de Raffensperger, um dos maiores desafios para a adoção de CBDC, que tem elevada rastreabilidade conferida pela tecnologia blockchain, é garantir sigilo bancário e direito à privacidade aderentes às legislações de diferentes países, além das exigências atuais de proteção de dados dos consumidores.
“No modelo direto de CBDC, o banco central sabe tudo o que foi feito. É muito diferente da moeda fiduciária que você tem na carteira. Quando você tem reais na sua mão, pode dar dinheiro para qualquer pessoa a qualquer momento e ninguém vai saber sobre isso.”
Raffensperger explica que a questão da privacidade pode ser endereçada, por exemplo, com estabelecimento de volumes para determinados tipos de transações com criptografia diferenciada. Outra forma é por meio das carteiras digitais, comuns no universo das criptomoedas, que trabalham de forma on-line e off-line por questões de segurança. As carteiras podem fazer transações por bluetooth e NFC de forma semelhante ao que ocorre com “cash”.
“A questão é se as pessoas têm expectativa do mesmo nível de privacidade. Para cada expectativa em relação a esses temas, há diferentes formas para se adaptar o ecossistema do CBDC. Cada país tem as suas regras”, disse ele.
Hoje, a maioria dos bancos centrais desenvolve estudos para criar as suas moedas digitais, entre eles a autoridade monetária brasileira. Alguns, como o Banco da Inglaterra, estão mais dispostos a restringir essa tecnologia para o atacado. No Japão, país que ainda usa muito o cash, o banco central se concentrou mais na tecnologia e menos na usabilidade do pagamento, disse Raffensperger. O país acabou desistindo dos testes por entender que a população não tinha interesse na modalidade.
Na avaliação do executivo, o Brasil deverá ter facilidade em relação a CBDC devido à popularidade dos smartphones e dos pagamentos eletrônicos, como o Pix e as transações por cartão.
Leia reportagens sobre investimentos e finanças pessoais no site www.valorinveste.com

Share