Tokens zumbis? Mais de 12 mil moedas digitais deixam de ser negociadas no inverno cripto
Milhares de startups emitiram tokens para sustentar projetos que depois fracassaram ou foram abandonados Quando se trata de colocar um número para ilustrar a derrocada das criptomoedas neste ano, o mais citado é de US$ 2 trilhões, o valor de mercado dos ativos digitais que evaporou com a baixa do mercado cripto. Mas aqui está um número que captura a amplitude desse bear market: 12.100.
Esse é o número de tokens de criptoativos que efetivamente deixaram de ser negociados este ano, de acordo com o provedor de dados Nomics – não são tokens mortos tecnicamente, mas atuam como zumbis, também não vivos.
A maioria dos projetos de blockchain é construída em torno de moedas digitais nativas, que geralmente funcionam como recompensas ao usuário e remuneram os desenvolvedores por seu trabalho, dando-lhes incentivo para permanecerem envolvidos nos projetos. Durante a alta de preços no ano passado, milhares de startups de criptomoedas emitiram novos tokens para apoiar esses projetos, e as perspectivas de alta daquele momento significava que havia ampla demanda pelo mercado para absorver a grande maioria deles e ainda elevar os preços.
Isso tudo mudou este ano, pois as condições macroeconômicas afastaram os investidores dos ativos de risco e os preços dos tokens caíram. A implosão da blockchain Terra, bem como o colapso do fundo de hedge Three Arrows Capital e de empresas como a Celsius Network causaram mais vendas e esfriaram o financiamento de capital de risco do segmento.
Os maiores tokens, como bitcoin e ether, sofreram grandes quedas antes de finalmente encontrarem suporte. Mas para muitas moedas que apoiam empreendimentos incipientes, mais arriscados e às vezes mais nebulosos, a desaceleração foi um verdadeiro golpe.
A Nomics compilou uma análise da atividade de moedas para a Bloomberg e descobriu que mais de 12.100 tokens se tornaram “zumbis” este ano, definidos como tokens que não são negociados há um mês. Isso é mais que o dobro do que em todos os anos anteriores combinados, segundo o pesquisador.
“Durante o mercado em alta de 2021, havia muito dinheiro, atenção e liquidez para projetos novos e existentes”, disse Jacob Joseph, analista de pesquisa da CryptoCompare, em entrevista. “No entanto, no bear market em andamento, mesmo bons projetos com utilidade terão dificuldades para sustentar suas operações, pois perdem acesso a capital e financiamento.”
Isso contrasta com o fracasso nas ofertas iniciais de moedas que ocorreram durante o mercado de baixa anterior a partir de 2018. À época, as startups emitiram moedas – muitas vezes ilegalmente – para levantar fundos. A maioria das ICOs nem tinha protótipos funcionais, muito menos usuários. quando eles quebraram. E o mercado era bem menor: em 2018, um total de 136 tokens se transformaram em zumbis, enquanto 766 moedas ganharam essa designação em 2019, muito abaixo do nível deste ano.
É difícil saber o escopo ou a seriedade dos projetos afetados desta vez, embora uma parte grande seja provavelmente de memes, ativos alavancados de curto prazo ou pequenos projetos pessoais feitos por diversão, de acordo com Nick Gauthier, cofundador da Nomics.
Muitos desses, como um projeto chamado BoomSpace, que pretendia trabalhar em jogos blockchain, não têm mais um site no ar, mas apenas uma conta no Twitter que não é atualizada há vários meses. Elonmoon, um token para um jogo relacionado à exploração da lua, tem um aviso no rastreador CoinMarketCap: “Recebemos vários relatórios de que alguns detentores não podem vender seus tokens. Por favor, tenha cuidado e faça sua própria diligência!”
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Mesmo entre as moedas ativas, a negociação pode ser pequena. Dos mais de 64.400 ativos que a Nomics acompanha, apenas cerca de 13.800 tiveram volume de negociação em um período recente de 24 horas na semana passada, disse Gauthier. E há uma infinidade de moedas que ainda não são zumbis, mas quase isso, e negociadas a uma fração de centavo – Terra Classic é um exemplo – talvez até oferecendo àqueles que gostam de aventura uma chance de ganhos.
Enquanto muitos projetos mantinham suas próprias moedas como reserva durante o boom, o ambiente atual sugere que as startups adotem uma abordagem mais cautelosa, talvez mantendo moedas mais negociadas e valorizadas como ether ou mesmo cash como backup.
“Acho que os projetos de cripto precisarão garantir que estejam prontos para as baixas tanto quanto quiserem aproveitar as altas”, disse Gauthier.
Ainda assim, com muitos prevendo que não haverá redução no ambiente de mercado fraco atual, as fileiras dos zumbis provavelmente aumentarão, disse John Griffin, professor de finanças da Universidade do Texas em Austin.
Ao contrário de outras indústrias, não é tão perceptível entre os criptoativos quando as moedas se transformam em zumbis e os projetos se tornam efetivamente extintos. “Não há vitrine para fechar, estoque para vender, funcionários para reivindicar desemprego”, disse Aaron Brown, um investidor de criptomoedas que escreve para a Bloomberg Opinion. “As pessoas simplesmente perdem o interesse em um token e passam para outras coisas.”
Essa dinâmica é uma das razões pelas quais novas moedas continuam nascendo à medida que outras são abandonadas, e por que é possível que o próximo mercado em alta traga ainda mais novos tokens – muitos dos quais podem se tornar zumbis com o tempo.
“Como o custo de uma startup de criptoativos é próximo de zero e qualquer pessoa no mundo pode tentar fazer isso sem discriminação ou regulamentação, muitas pessoas continuarão tentando”, disse Brown. “Onde você acha que as moedas mortas estão se acumulando? Não é como se o ciberespaço fosse um armazém com capacidade limitada.”

