Citi quer ser o banco das fintechs e da inclusão digital, diz diretor
Para diretor, tokenização pode ajudar a formalizar economia Donovan, do Citi: segurança e regulação são barreiras para avanço de fintechs
Ana Paula Paiva/Valor
O Citigroup planeja ser o banco das fintechs e da inclusão financeira por meio da digitalização do dinheiro e dos ativos tokenizados que surgem com a tecnologia blockchain e as moedas virtuais dos bancos centrais, disse em entrevista ao Valor Steve Donovan, diretor de soluções para tesouraria e trade da instituição na América Latina.
O executivo descreveu, durante passagem pelo Brasil na semana passada, a estratégia do Citi em relação à tokenização e aos diversos provedores de serviços financeiros que usam a tecnologia descentralizada (DeFi) que assusta Wall Street e os reguladores globais. Para Donovan, esses players não representam necessariamente uma ameaça nem são concorrentes. “Eles trazem uma oportunidade de inclusão de um contingente enorme de pessoas e negócios hoje na informalidade, particularmente na América Latina e na África Subsaariana, ao sistema financeiro global”, disse.
Donovan vislumbra o Citi como um dos players que vai conectar esse público emergente e os serviços oferecidos pelas fintechs e bancos, como numa “grande orquestra”, em que o papel das instituições financeiras de maior porte será o de garantir o compliance, as exigências regulatórias e a segurança cibernética das transações financeiras. “Não sou bom em todas as coisas, mas posso conectar diferentes serviços e participantes desse arranjo financeiro como numa grande orquestra.”
Valor: Como o Citi vê a tokenização da economia e qual será o papel dos grandes bancos nesse mundo?
Steve Donovan: Temos trabalhado com fintechs, marketplaces, e-commerces, empresas de pagamentos, carteiras digitais, para citar alguns exemplos. Nós conectamos todos esses participantes. Alguns bancos não querem conversar com eles, mas nós vemos isso como uma oportunidade. As fintechs são tão parceiras nossas como os nossos clientes. Não quero ser um banco tradicional. Nosso business é basicamente tecnologia e talento. Quero que o cliente venha à plataforma do Citi e, como numa orquestra, conduzo ele para todos os tipos de serviços financeiros, como músicos que tocam diferentes instrumentos. Alguns clientes vou conduzir para o Citi, outros para uma provedora de pagamentos alternativos, para uma carteira digital, para uma fintech especializada. Não quero fazer todas as coisas e não sou bom em tudo. Mas posso conectar tudo isso como numa grande orquestra.
Valor: Qual o peso da segurança e das exigências regulatórias nesse novo arranjo financeiro?
Donovan: Garantir a segurança das transações vai ser ainda mais difícil e exigirá investimentos cada vez maiores. Fazemos investimos pesados para ter uma infraestrutura robusta e para educar nossos clientes. Os custos desse negócio serão muito altos e isso representa uma barreira de entrada realmente significativa para os novos players. Por esse motivo, as fintechs não vão pegar meu almoço. O custo para entrar nesse business é muito alto. E quando você se torna um banco comercial tem que ficar aderente a toda uma gama de exigências regulatórias. O custo disso é muito elevado.
Não sou bom em todas as coisas, mas posso conectar diferentes serviços como numa grande orquestra”
Valor: Qual será a próxima fronteira na digitalização do dinheiro?
Donovan: A próxima revolução são as CBDCs [moedas digitais dos bancos centrais]. Caiu no gosto popular falar de criptomoedas, de bitcoin e de CBDCs, mas acredito que poucas pessoas realmente compreendem o real valor disso e os benefícios da tokenização. A população desbancarizada movimenta perto de US$ 25 trilhões. Cada US$ 1 trilhão que trouxermos para a economia formal vai se traduzir em US$ 300 bilhões, primeiramente em moedas dos bancos centrais, que podem se transformar em depósitos bancários. Se você tem US$ 100 bilhões em depósitos, isso permite fazer, por baixo, US$ 90 bilhões em empréstimos. E a América Latina tem a segunda maior economia informal do mundo, atrás da África Subsaariana. É uma oportunidade enorme.
Valor: Quais as maiores dificuldades nesse caminho? Certamente não é a tecnologia.
Donovan: A tokenização financeira e das moedas traz imensos benefícios. Nos EUA, o problema, na minha visão, é que o dólar digital demanda uma enorme revisão na legislação, de uma maneira que os formuladores de políticas nunca viram antes. É uma mudança muito significativa, que vai requerer inúmeras aprovações. Mas acredito que isso vai acontecer. é um processo que vai levar tempo. A verdade é que muitos países não gostam tanto da ideia das moedas digitais. Existem alguns muito favoráveis, como a Nigéria, mas a adoção em outros vai ser muito, muito lenta. Tudo acontece de forma experimental e não obrigatória. O ritmo de adoção vai ser importante.
Valor: Quais serão as próximas fronteiras que serão rompidas?
Donovan: Acredito que serão as transferências entre fronteiras. Não apenas as transferências entre pessoas, mas também envolvendo empresas. Hoje isso envolve o câmbio de moedas, mas no futuro – não sei se vou ver isso no meu tempo – todas as moedas serão tokenizadas e poderemos ter transações do real digital, que é uma moeda fiduciária, para outra divisa internacional, como o dólar digital. Você chegará ao último estágio sem uma operação de câmbio como conhecemos hoje. A transferência poderá ser rápida, eficiente e segura. Ninguém no setor financeiro poderia imaginar 20 anos atrás que isso pudesse acontecer com os pagamentos instantâneos, como o Pix no Brasil.
Valor: Como está o Brasil na tokenização?
Donovan: O caminho do Brasil é diferente. O regulador disse: essa é a forma como enxergamos o futuro e tudo isso – pagamentos instantâneos [Pix], open banking e real digital – se conecta e vai caminhar junto. É uma visão realmente muito bonita, mas mesmo assim demanda tempo. Representa a maior mudança na história dos serviços financeiros, nunca houve nada dessa magnitude antes. Veja o caso do Pix, que é comum até para comprar sorvete na praia do Rio de Janeiro, mas até hoje a adoção pelas empresas ainda é pequena. A moeda digital vai demorar ainda mais.
Valor: Qual o potencial de inclusão social e financeira que surge com a digitalização do dinheiro?
Donovan: Em alguns países da América Latina a informalidade representa mais de 70% da economia. São pessoas que movimentam só “cash”. Temos trabalhado com os bancos centrais de diversos países para entender por que isso ocorre. Primeiro temos que simplificar as transações, e os pagamentos instantâneos, como o Pix, fazem isso. É rápido, fácil, tem baixo custo e seguro. Tudo que você precisa ter é um telefone celular e uma carteira digital ou conta bancária.
Valor: Como os pagamentos digitais como o Pix se conectam com a digitalização do dinheiro?
Donovan: A tecnologia permitiu esses arranjos serem feitos não só por bancos tradicionais, mas também por novos entrantes, como fintechs e provedores de serviços financeiros. Passo a passo, a revolução digital vai ganhando corpo de forma acelerada. Na América Latina, 11 países têm hoje pagamentos instantâneos e o Brasil é um dos líderes desse processo. Vejo os reguladores no Brasil – e isso é opinião pessoal – como indutores dessa modernização. O Brasil é a Cingapura da América Latina, com adoção rápida da inovação e simplificação dos serviços financeiros.
Valor: Como o Citi quer participar desse processo?
Donovan: Mais do que um banco comercial, queremos contribuir com nossos clientes e com a economia. É muito importante que ataquemos a economia informal e que nos tornemos um vetor da inclusão financeira e social. Nosso papel é muito maior do que ser uma instituição financeira. Queremos investir muito mais tempo e recursos para isso. O que mais podemos fazer para trazer mais brasileiros para se tornarem parte do sistema financeiro e da economia? Como podemos criar oportunidades para pessoas que historicamente não tinham acesso a esses serviços? Isso que temos discutido.

