Trabalho de vencedores de Nobel de Economia ajudou sociedade a pagar um custo menor na crise de 2008, diz Aloisio Araujo

Os economistas ensinaram a como lidar com a crise bancária”, disse o professor da FGV e pesquisador emérito do Instituto de Matemática Pura e Aplicada O trabalho de Ben Bernanke, Douglas Diamond e Philip Dybvig, vencedores do Prêmio Nobel de Economia 2022, ajudou a sociedade a pagar um custo menor pela crise financeira de 2008 que na Grande Depressão de 1929, afirmou nesta segunda-feira o pesquisador emérito do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Aloisio Araújo.

“Eles foram muito úteis para a sociedade pagar um preço muito menor na crise de 2008 que na Grande Depressão. Os economistas ensinaram a como lidar com a crise bancária. Não é possível evitar, mas que quando ela ocorrer, que seja um custo menor”, disse ele.

A Real Academia Sueca de Ciências destacou o trabalho dos três nas pesquisas sobre crises bancárias e financeiras ao anunciar o Nobel de Economia.

Ben Bernanke era presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) desde 2006, antes da crise de 2008 provocada pelo subprime (empréstimos de alto risco). A pessoa certa, no lugar certo, como disse Aloisio Araujo agora e foi mencionado inúmeras vezes na época. Bernanke fez ampla pesquisa histórica sobre a Grande Depressão, ajudando a expandir o conhecimento sobre o funcionamento das crises bancárias. No Fed, conduziu uma política de compra ações de bancos americanos, ao lado do Tesouro dos Estados Unidos, ajudou a “consertar o sistema financeiro”.

“Bernanke fez um estudo histórico muito famoso sobre a história da Grande Depressão. E depois, no Fed, enfrentou a crise sem tantos danos. Depois do momento inicial do Lehman Brothers, o Fed e o Tesouro fizeram uma ampla política de recuperação dos bancos. Compraram ações dos bancos e capitalizaram os bancos. Depois que as coisas melhoraram eles venderam”, lembrou.

Neste aspecto, Araujo reconhece as críticas da sociedade quanto ao uso de recursos públicos para a compra de ações dos bancos, mas pondera sobre o papel dessas instituições para a economia e o risco de custos maiores.

“O Bernanke usou dinheiro público e houve críticas. Mas saiu de um prejuízo de milhões e foi reduzindo. Quando as ações dos bancos foram revendidas [pelo Tesouro e pelo Fed], já valiam muito mais. Se um banco quebrar, é um custo enorme para a sociedade”, argumenta.

E é nessa linha de compreensão da função dos bancos na sociedade que Douglas Diamond e Philip Dybvig trabalharam, conta Araujo. O artigo “Bank Runs, Deposit Insurance, and Liquidity”, de 1983, explica a natureza das crises bancárias, para entender o papel dos bancos na sociedade.

“Eles falam que os bancos são muito importantes na sociedade porque levam os recursos de pessoas de uma maturidade [prazo] para pessoas que precisam de recursos em outro momento. Muita gente coloca no banco para aplicação no curto prazo, porque não precisa dos recursos por seis meses, um ano. E outros precisam de recursos de uma maturidade grande, vão comprar uma casa, construir uma fábrica. E os bancos proveem esse serviço. Unem aplicadores de diferentes prazos”, conta Araujo.

Só que essa dinâmica deixa os bancos “naturalmente vulneráveis”, explica Araujo, em situações de incerteza que levem a uma corrida bancária, que os investidores querem retirar seus recursos.

“Tem uma regulação bancária, com uma certa quantidade de recursos que precisa ter, mas nunca é suficiente. E se elevar demais fica muito rígido, ninguém vai querer trabalhar com isso. Então os bancos também têm uma fragilidade. E o paper deles sobre como funcionam os bancos e as corridas bancárias é brilhante”, diz.
A Real Academia Sueca de Ciências destacou o trabalho dos três nas pesquisas sobre crises bancárias e financeiras
Anders Wiklund/AP

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