Questão fiscal altera balanço de riscos do BC, diz economista-chefe do Credit Suisse Brasil

Na avaliação de Solange Srour, se persistir o cenário de incerteza fiscal, ficará cada vez mais claro que o espaço para cortar juros será reduzido Em meio às indefinições relacionadas à PEC da Transição e à regra fiscal que vigorará nos próximos anos no Brasil, ainda é difícil projetar uma mudança na trajetória da política monetária do Banco Central. No entanto, na avaliação da economista-chefe do Credit Suisse Brasil, Solange Srour, é possível dizer que o balanço de riscos da autoridade monetária já mudou e, se persistir o cenário de incerteza fiscal, ficará cada vez mais claro que o espaço para cortar juros será reduzido.

É muito difícil dizer se vai ou quando vai voltar a subir os juros. O que a gente consegue dizer, neste momento, é que o balanço de riscos mudou. Ainda que a PEC não seja aprovada do jeito que está, se tivermos um cenário que continue trazendo incerteza fiscal, vai ficar claro que não tem espaço para queda de juros e, inclusive, que eles poderiam voltar a subir. Isso se traduziria em um cenário de mais inflação, menos crescimento e muito provavelmente uma contínua piora da dinâmica fiscal, afirma a economista.

Na visão dela, em um cenário de descontrole de gastos, mesmo que o Banco Central já tenha cumprido o seu papel do ponto de vista da política monetária, pode acabar sendo atropelado pelas questões fiscais.

Caso ele se veja obrigado a reagir, pela perda da âncora fiscal, suas ações acabam sendo ineficazes. A expectativa de dívida fica ainda maior e a política monetária acaba colocando ainda mais peso na piora da dívida. Os agentes começam a pensar que a inflação é a solução para o problema fiscal, pelo aumento das receitas ou pela melhora do denominador dívida/PIB. É uma situação muito ruim. O BC, nesse caso, age, não colhe frutos e acaba colocando ainda mais fogo em um problema que não foi ele que causou, afirma.

Atualmente, na visão da economista, o que o Banco Central tem feito é colocar os alarmes para tocar. Os recados já estavam presentes na ata, quando o Copom reforçou o episódio da Inglaterra e manteve a sinalização que, se precisasse, voltaria a subir juros. O Roberto Campos Neto também alertou que 2023 pode ser um teste para a autonomia da instituição. O BC está tentando, através da comunicação, alertar para o perigo e dizer que está atento, que é autônomo e que vai agir, avalia.

Segundo Srour, caso a PEC seja aprovada da maneira que está hoje, é muito difícil haver uma medida compensatória aprovada pelo governo que seja capaz de estabilizar a trajetória da dívida.

Uma reforma tributária não seria suficiente. Ninguém consegue imaginar um aumento da carga tributária deste tamanho. Não só nenhum congresso aceitaria, como também seria um tiro no pé do crescimento. Não há medida compensatória capaz de trazer um controle da dívida se a PEC for aprovada do jeito que ela está, afirma. Uma alternativa melhor, para ela, seria a aprovação de uma licença (waiver), limitado ao valor dos gastos essenciais, como a continuidade do auxílio em R$ 600.

Ainda, a economista do Credit Suisse projeta que qualquer regra que seja aprovada para substituir o teto será vista como crível pelo mercado se vier junto de uma reforma nos gastos públicos. Se não tiver mudança na estrutura do gasto, o mercado vai entender que essa regra vai ser quebrada de novo. Essa é a discussão mais importante, por mais que esteja completamente ausente do debate hoje, avalia.

Se a reforma do gasto no Brasil não for feita, vamos precisar de uma reforma por ano para aumentar a carga tributária. A âncora precisa vir com a discussão do gasto. E essa discussão deveria ser feita no primeiro ano de governo, porque é impopular e precisa de muito capital político. Estamos, neste momento, não só fragilizando a âncora, como também não estamos fazendo essa discussão importante para o começo de governo, aponta.
Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse.
Silvia Costanti / Valor

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