Bitcoin contraria entusiastas e inicia 2023 sem previsão de alta
Analistas seguem pessimistas com foco no Fed e regulação Su Zhu, cofundador do Three Arrows: quebras em efeito dominó abateram fundo
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Entusiastas das criptomoedas previam que o bitcoin, a maior e mais antiga das moedas digitais, quebrasse novos recordes e ultrapassasse US$ 100 mil no ano passado, rumo a US$ 1 milhão até 2030, caso da gestora Cathie Wood, da ARK Investments. A realidade de 2022, no entanto, foi uma desvalorização de 64%, a maior desde os 71% de 2018, que levou o bitcoin de volta a US$ 16.540 e colocou o segmento digital como um todo no fim da fila da retomada, atrás dos demais ativos de risco das finanças tradicionais.
A derrocada dos criptoativos, que perderam mais de US$ 2 trilhões em valor de mercado, ocorreu junto com a dos mercados de ações, que tiveram o pior desempenho desde a crise de 2008. O feito foi agravado por ataques de hackers, implosão do sistema Terra Luna e quebras em efeito dominó de Celsius, Voyager e do fundo Three Arrows, fundado por Su Zhu, numa espiral de desvalorização de ativos e garantias dos negócios.
O último golpe foi a implosão da FTX, então a segunda maior corretora centralizada do mundo, que colocou em xeque o apoio a startups de criptoativos que operavam no modelo de Wall Street.
Os projetos de criptoativos guardam uma análise de risco semelhante àquelas das empresas de tecnologia, as mais beneficiadas pelo juro baixo do período pandêmico – e agora as mais prejudicadas pela escalada nas taxas, que derrubam a quase zero o chamado valor a presente de startups consideradas de alto potencial. A isso somam-se ingredientes próprios da natureza do setor, como ataques cibernéticos, falta de regulação e controles falhos, como visto nos episódios de FTX e Terra Luna.
Nem mesmo o ether, moeda nativa da rede Ethereum e a segunda maior divisa digital, escapou do pessimismo, apesar de patrocinar um upgrade de software celebrado por reduzir em 99% o consumo de energia ao dispensar o uso de mineradores. No ano passado, o ether teve desvalorização de 68%, também a maior desde 2018.
O Ethereum é a maior blockchain em operação comercial e abriga mais de 2.500 projetos de finanças descentralizadas (DeFi), considerados de alto potencial para competir com os serviços financeiros tradicionais. Desde o upgrade em setembro, desabou de US$ 1.982 para US$ 1.200, evidenciando as dificuldades do setor.
Israel Buzaym, sócio da Bitypreço, considerou decepcionante o desempenho das criptomoedas num ano que tanto prometia. “Ainda que os ciclos de mercado sejam parte do nosso dia a dia, e tenhamos aprendido a conviver com os altos e baixos, ver o preço do bitcoin fechar o ano com uma queda de quase 70% é chocante”, disse.
Para 2023, analistas especializados em criptoativos seguem pessimistas, com atenções divididas em dois campos prioritários: macroeconômico, em meio a uma desaceleração global e juros elevados para conter a inflação. regulação de ativos digitais, movimento que poderá disciplinar as regras do jogo e dar segurança jurídica para investidores das finanças tradicionais se beneficiarem da tecnologia blockchain de “tokenização” de ativos.
Fernando Pereira, analista da Bitget, não acredita em mudança no nível de preço nos próximos dias. Para ele, a tendência principal é o retorno do bitcoin para a faixa de US$ 15.500 no início do ano.
Ayron Ferreira, chefe de análise da Titanium Asset, considera a regulação decisiva para o desempenho da indústria no próximo ano. Já o ambiente macroeconômico será o principal ponto de atenção, capaz de ampliar o apetite a risco.
“A regulação do setor cripto será um tema muito decisivo em 2023, sem dúvida. Em 2022 houve vários avanços. A Europa aprovou o texto do MiCA (Markets in Crypto-Assets), o Brasil aprovou o PL 4.401. A regulação pode segurar um pouco alguns pontos do setor, mas é necessária para o aumento da credibilidade da indústria”, disse.
Axell Blikstad, sócio da BLP Crypto, destaca que a tecnologia blockchain e os principais projetos seguem sólidos, com perspectiva de expansão apesar dos contratempos de 2022. “Todos esses problemas que tivemos foram gerados por intermediadores que fizeram bobagem, seja alavancagem em excesso ou pouco controle de risco. Mas os protocolos funcionaram perfeitamente. Não é um problema da tecnologia, mas sim de intermediários que não fizeram um bom trabalho.”
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