A mobilização dos investidores pessoa física pode acelerar a adoção do ESG no Brasil

Investidores pessoas físicas não necessariamente têm tido a oportunidade de alocar seus recursos em produtos com características ESG adequados ao seu perfil de risco. Entenda por quê A quantidade de pessoas físicas negociando ações na B3 saltou de aproximadamente 700 mil CPFs em 2018 para 4,3 milhões em março de 2022, um crescimento de 514%. Boa parte desses novos investidores pertence à geração mais jovem, como indica um levantamento realizado pela própria B3.
Considerando as preocupações das Gerações Z e Millenium com as questões climáticas e socioambientais, apontadas por diversas pesquisas, poderíamos supor que há um grande potencial da parte desses investidores para mobilizar as empresas a assumir compromissos ligados à pauta ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança). Mas será que há meios para isso?
Será esses investidores pessoas físicas têm tido a oportunidade de alocar seus recursos em produtos com características ESG adequados ao seu perfil de risco, interesses e necessidades? Não necessariamente.
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No âmbito de fundos de investimento, por exemplo, embora a iniciativa de regulamentação de fundos sustentáveis pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (ANBIMA) vise auxiliar o investidor na compreensão do que são e como operam esses fundos ao estabelecer a necessidade de detalhamento dos processos e metodologias de integração e monitoramento do aspecto ASG utilizados nos processos de investimento, dados da ANBIMA de julho de 2022 mostram que apenas 23% dos fundos sustentáveis de ações têm como benchmark o índice de sustentabilidade empresarial (ISE) da B3.
Isso significa que há uma série de outros índices sendo utilizados pelos fundos de investimento que integram aspectos ASG em seus processos, o que dificulta a compreensão e a familiaridade desses instrumentos por parte dos investidores de varejo.
Do ponto de vista dos bancos, relatos de sustentabilidade de quatro dos maiores bancos privados do Brasil – Itaú, Santander, Bradesco e BTG Pactual – referentes ao ano de 2021 indicam que o estágio atual de compreensão e exercício do setor financeiro acerca das finanças sustentáveis no país é recente, e que os portfólios de produtos e serviços oferecidos classificados como ESG estão predominantemente alocados nos produtos e serviços de crédito, como emissões de títulos verdes e de sustentabilidade, sendo apenas uma pequena parte direcionada a produtos de investimentos ESG destinados a investidores de varejo.
Essas dissonâncias demonstram que ainda existe muito potencial não explorado na agenda de finanças sustentáveis do Brasil. O oferecimento de produtos ESG e o fornecimento de informações mais claras e completas sobre aspectos climáticos e socioambientais de instrumentos financeiros aos investidores do varejo se refletiria numa maior alocação de recursos em companhias e/ou pautas sustentáveis, o que ajudaria a mover essa agenda no país.
O caminho para isso é longo, mas a mobilização dos investidores pessoa física, ao permitir que eles averiguem a forma com que seus investimentos se atrelam a esforços de neutralização da emissão de CO2 ou de aumento da quantidade de mulheres em cargos de liderança, por exemplo, pode de fato incentivar as empresas a assumirem e executarem metas relacionadas ao ESG. Afinal, não foi isso o que fizeram os consumidores nas indústrias não financeiras?
Conheça os autores:
Mario Monzoni é coordenador geral do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP).
Alessandra Becker Rieper, Anderson Ignácio e Victor Mizusaki são mestrandos do programa de Mestrado Profissional em Gestão para Competitividade – Sustentabilidade (MPGC) da FGV EAESP.
Mario Monzoni é coordenador geral do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP)
Divulgação

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