Análise: Remessas de lucros explicam intervenções no câmbio
No mês, BC fez um total de US$ 3,9 bi em intervenções no mercado à vista de câmbio Os dados do balanço de pagamentos, divulgados nesta quarta-feira pelo Banco Central (BC), mostram que as vendas de dólares no mercado à vista feitas pela autoridade monetária estão suprindo as remessas de lucros e dividendos.
Em dezembro, até o dia 17, as empresas remeteram US$ 4,863 bilhões para seus acionistas no exterior, sob a forma de distribuição de seus resultados apurados no Brasil.
Nesse mês, o BC fez um total de US$ 3,9 bilhões em intervenções no mercado à vista de câmbio. O presidente da instituição, Roberto Campos Neto, disse na semana passada que a autoridade monetária estava dando liquidez no mercado diante do aumento das remessas de lucros e dividendos. E citou, em particular, pagamentos feitos por uma estatal.
As séries estatísticas do Banco Central mostram que o aumento das remessas de lucros e dividendos ocorre sazonalmente em dezembro, quando as filiais no Brasil mandam recursos para fechar o caixa no fim do ano das matrizes. Também há remessas de empresas brasileiras com ações no exterior.
Silvia Zamboni/Valor
Os envios desses resultados ficaram na média de US$ 4,627 bilhões nos meses de dezembro, de 2010 para cá. Em média, as saídas nesse item das contas correntes do balanço de pagamentos equivalem a cerca de três vezes a média mensal observada no restante do ano.
Por enquanto, com a saída de US$ 4,863 bilhões observada em dezembro, até o dia 17, as remessas equivalem a quase 1,5 vez a média observada nos 11 primeiros meses deste ano.
O BC, historicamente, costuma atuar no mercado de câmbio nos meses de dezembro, fornecendo liquidez aos mercados. Mas houve uma mudança importante na estratégia depois que Campos Neto assumiu o cargo, em 2019.
Até então, os instrumentos preferenciais para dar liquidez ao mercado eram as ofertas de swaps cambiais e de linhas de empréstimos em dólares. Amparados com esses instrumentos, os bancos supriam o mercado de dólares à vista durante o período de escassez de divisas.
De 2019 para cá, o Banco Central passou a ofertar também dólares à vista. O entendimento da gestão atual é que é mais eficiente fornecer o tipo de moeda que o mercado precisa, entre swaps, linhas de dólar e dólar à vista.
As gestões anteriores preferiam fornecer swaps cambiais e linhas em dólares porque elas não reduzem o volume de reservas internacionais do BC. Campos Neto, porém, gosta de olhar a posição cambial líquida, que deduz as operações com linhas e swaps – embora a atuação no mercado futuro de moeda seja liquidada em moeda nacional.
No ano passado, também houve forte saídas de lucros e dividendos, com um fluxo de US$ 5,5 bilhões, assim como em 2019, com remessas que somaram US$ 8,4 bilhões. Neste ano como um todo, as remessas aumentaram, acompanhando a recuperação na rentabilidade das empresas.
Além de forte saída de lucros e dividendos, os dados parciais do balanço de pagamentos até 17 de dezembro mostram uma entrada mais fraca de investimento direto (US$ 1,680 bilhão) e saída de investimentos em carteira (US$ 1,132 bilhão).
O câmbio contratado comercial está no positivo, com US$ 859 milhões no período. As saídas se concentram no câmbio financeiro, com fluxo negativo de US$ 6,261 bilhões.

