Banco Central descarta cenário de estagflação para a economia brasileira, diz diretora
No caso do Brasil, Fernanda Guardado destaca alguns setores “serão pilares de crescimento” em 2022, como a agropecuária e os serviços A diretora de assuntos internacionais e gestão de riscos corporativos do Banco Central (BC), Fernanda Guardado, afirmou nesta terça-feira (16) que a autoridade monetária não trabalha com um cenário de estagflação para a economia brasileira. Ela afirmou que “muita gente” está prevendo recessão para o ano que vem, a partir de revisões recentes de cenários.
“Temos muita dificuldade de ver esses números”, disse em evento virtual sobre o Brasil e a conjuntura internacional pós-pandemia, promovido pela Associação de Bancos no Estado do Rio de Janeiro (Aberj). “Não trabalhamos com cenário de estagflação.”
No caso do Brasil, ela destacou que alguns setores “serão pilares de crescimento” em 2022, como a agropecuária e os serviços
“No mundo acho que isso (estagflação) é menos verdade ainda”, disse, afirmando que “todas as projeções para o ano que vem são de crescimento robusto”, ainda que haja preocupações com a economia chinesa e com a “fase meio coordenada de retirada [global] de estímulos”.
“Todos esses ingredientes trazem incerteza maior para o ano que vem, mas acho que é um ano de desaceleração, não de recessão”, disse.
Segundo Fernanda, a autoridade monetária “trabalha com o processo de desinflação em 2022”, causado por “uma recuperação do hiato do produto (medida de ociosidade da economia) que tende a ser um pouco mais lenta”.
A diretora destacou que a inflação de serviços é a “mais inercial” e a que mais “responde a ciclo econômicos”. Em um primeiro momento da pandemia, a inflação do setor “despencou”. Neste ano, à medida que houve a reabertura da economia e o avanço da vacinação, surgiu também “certa compensação” de preços no setor. “Esperávamos no BC que houvesse esse realinhamento”, disse.
Ela destacou que, no acumulado de 12 meses, a inflação de serviços “está perto de 3%”. Já a inflação subjacente do setor, que é uma medida mais sensível à taxa de juros e à atividade econômica, “está acima de 4%, em torno de 4,5%”.
“É próximo do patamar de 2016 e 2017, um pouco acima da nossa meta, mas longe do que observamos nas outras aberturas”, afirmou.
De acordo com a diretora, “todas essas pressões têm se traduzido em ajuste de expectativas” de inflação tanto do BC quanto do mercado para este ano e ano que vem. Ela lembrou, por exemplo, que as expectativas de mercado medidas pelo Boletim Focus têm sido reajustadas “consistentemente para cima”.
Meta de inflação
Fernanda destacou ainda que a autoridade monetária segue trabalhando para cumprir as metas de inflação. A afirmação foi feita após questionamento sobre o que a política monetária pode fazer para combater a inflação em um cenário de ausência de grandes reformas, mas com clima eleitoral antecipado e pressões de preços.
“O que a política monetária pode fazer é o que estamos fazendo, é reagir. Nós temos uma meta, temos um mandato, temos a independência”, disse. “Levamos a nossa missão muito a sério.”
Fernanda reforçou que o BC atua para combater choques secundários de inflação e que está “agindo da maneira que acreditamos que é a correta”.
No acumulado de 12 meses até o outubro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 10,67%, conforme divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Atualmente, para conduzir a Selic, o BC mira com pesos iguais os anos de 2022 e 2023, para os quais as metas de inflação são 3,5% e 3,25%, respectivamente. Em ambos os casos, há um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.
Na última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a Selic de 6,25% ao ano para 7,75% ao ano e afirmou que “antevê” nova alta de 1,5 ponto para o último encontro de 2021, em dezembro. Também disse considera “apropriado que o ciclo de aperto monetário”, com novas altas da Selic, “avance ainda mais no território contracionista”.
A diretora pontuou também que o deslocamento do consumo de serviços para bens “vai ser um pouco da narrativa de pressões inflacionárias que observamos” globalmente em 2021.

