Blended finance é uma das apostas do setor financeiro para escalar impacto

Ferramenta é uma arquitetura financeira que permite diminuir riscos de projetos e aportar recursos onde o financiamento convencional não costuma se aventurar Maria Netto, do BID: “Recursos de filantropia poderiam migrar para blendeds finance e multiplicar o impacto”
Divulgação/BID
Formada em design, em 2014 Fernanda Knopfler conquistou o sonho de ter sua própria marca. À frente da Trend4tods, ela precisou pegar dinheiro emprestado para se manter na pandemia. Com crédito do fundo Estímulo 2020 e dicas de Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora e mentora dos clientes do fundo, ela conseguiu driblar o lockdown e alavancar o negócio. “Antes, minha maior fonte de receita vinha de feiras e bazares. Tive que me adaptar e investir em marketing digital. aumentei em três vezes as vendas on-line”, conta. Na contratação, dá preferência às mães e escolhe fornecedores locais.
Criado em 2020 por um grupo de empresários, entre eles Abilio Diniz, Luciano Huck, Eugênio Mattar, Eduardo Mufarej, Carlos Fonseca e Ticiana Rolim Queiroz, e com apoio de algumas companhias, como Santander e Localiza, o Estímulo captou R$ 60 milhões em doações e, em apenas dois anos, apoiou mais de 2,3 mil pequenos negócios, sendo que 77% dos cheques foram concedidos para comércios em regiões onde vivem pessoas das classes C, D e E. Cerca de 26% de quem tomou empréstimo nunca havia realizado esse tipo de operação.
Até agora, foram mais de R$ 130 milhões em financiamentos, a juro de até 23% ao ano – abaixo da média do mercado, de 38% ao ano, segundo o Banco Central. A taxa de inadimplência é baixa, de apenas 5%, “fora da curva no mercado”, segundo Fábio Lesbaupin, CEO do Estímulo. Para ele, o diferencial do projeto é promover mentorias e oferecer educação para os contemplados. “Não é só dar o dinheiro. Fazemos também esse acompanhamento para que o negócio dê certo”, diz acrescentando que, em um ano, quem tomou crédito e participou dos eventos, viu sua receita aumentar em 25%.
Desafio é fazer a combinação de estruturas existentes para destravar capital que ainda não vai para à agenda de impacto”
Com bons resultados, o fundo deu um passo além em 2021 e se transformou em um “blended finance”, como é chamado um arranjo financeiro que combina fontes diversas de recursos financeiros, como públicos, privados e filantrópicos. Gerido pela gestora Galápagos, o novo Estímulo terminou em abril sua primeira captação junto a investidores, quando levantou R$ 15 milhões. Agora, se prepara para nova rodada no fim deste ano. “Isso é inovação na filantropia, multiplicar o impacto do recurso: o doador coloca R$ 1 real e eu me comprometo a buscar R$ 2 com investidores”, comenta Lesbaupin, adicionando que a Galápagos e a BIZ Capital também ajudam de maneira pro bono.
A estrutura mais conhecida de um blended finance é a combinação de dinheiro não reembolsável (que não precisa ser devolvido), vindo de filantropia, bancos de fomento e/ou organismos multilaterais, com capital remunerado de investidores. No caso do Estímulo, por exemplo, que usa a estrutura de Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), o dinheiro de doações está nas cotas subordinadas, de maior risco e que dá garantias à operação. Os investidores podem comprar cotas juniores, que lhes remuneram à taxa fixa de 120% do CDI ao ano, por três anos. O rendimento é menor do que o mercado oferece hoje para este nível de risco, mas abrir mão de algum retorno é uma característica dos blendeds.
“Os investidores que topam, entendem que estão deixando na mesa rentabilidade para apoiar uma causa. Não estão lá pelo lucro, mas pelo propósito”, diz Marco Antonio Bologna, sócio da Galápagos. Fábio Guarda, também da gestora, acrescenta que há uma carência de produtos ESG voltados para o social. “Quando apresentamos o fundo, todos os empresários tiveram interesse porque é um conceito diferente, que ninguém está acostumado. Tem tudo para ser um produto que ganhe escala para outros potenciais investidores.”
Fernanda Knopfler, da Trend4tods, pegou microcrédito de fundo para driblar lockdown e vender pela internet
Divulgação
Dados da plataforma especializada em blended finance Convergence mostram que até hoje foram mobilizados US$ 166 bilhões para investimentos do tipo em países em desenvolvimento. A África subsaariana é a região que mais tem recebido investimentos do gênero nos últimos anos, chegando a 47% do total, seguida por América Latina e Caribe, com 17%. No Brasil, é algo ainda novo.
“O Brasil é privilegiado porque tem um mercado financeiro refinado e bem servido de instrumentos. O desafio do blended é fazer a combinação adequada das estruturas existentes para destravar a liberação de capital que ainda não é direcionado à agenda de impacto como deveria”, diz Marco Gorini, cofundador da Din4mo, grupo que atua na estruturação de blended finance no Brasil e no desenvolvimento de startups de impacto.
Além da multiplicação do alcance, outra vantagem do blended é diminuir risco de operações que poderiam ser vistas como comercialmente inviáveis pelo setor financeiro. Por isso, tem se mostrado uma ferramenta para alavancar o desenvolvimento socioambiental. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o blended pode ser uma alternativa para os países em desenvolvimento alcançarem suas metas de desenvolvimento sustentável (ODSs) até 2030.
A Din4mo se envolveu diretamente com algumas operações, uma delas, o Programa Vivenda. Criado em 2018 com apoio da securitizadora Gaia para financiar reformas de moradia em favelas, foram levantados R$ 5 milhões por meio da primeira debênture financeira social do Brasil. Do total, 40% vieram de investidores sociais privados, como um fundo ligado à Fundação Tide Setubal, que ficou com cota subordinada, o risco de inadimplência principal. O restante, referente a cotas sêniores, foi distribuído a investidores do private bank do Itaú Unibanco, algo incomum ainda.
Mais de 4 mil famílias já foram contempladas com cheques médios de R$ 7 mil, a serem pagos em parcelas mensais de R$ 200. “Só foi possível pelo investidor social que tomou risco na frente”, diz Gorini, da Din4mo. O escritório TozziniFreire fez a assessoria pro bono.
Em março, Din4mo, Gaia e a incorporadora MagikJC anunciaram outro projeto, o SOMA, que quer construir 10 prédios no centro de São Paulo para oferecer locação até 30% mais barata para famílias de baixa renda. Entre os investidores do Certificado de Recebível Imobiliário (CRI) que levantou recursos estão Dexco, Gerdau, Movida, Votorantim Cimentos e P4 Engenharia. Todos os envolvidos deixam algum de ganhar um pouco para viabilizar a ideia.
Outro caso que promete ser um divisor de águas para o segmento é a primeira operação com arquitetura blended finance do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), lançada em maio com o objetivo de mobilizar capital para financiar projetos de impacto socioambiental. O banco está disponibilizando R$ 90 milhões e espera multiplicar por quatro (R$ 360 milhões) com captação junto a terceiros. O edital para selecionar os projetos incluiu uma cláusula que exigiu, nas propostas, a apresentação de um plano para levantar mais R$ 3 para cada R$ 1 aportado pelo BNDES.
O edital teve 101 interessados, sendo 50 propostas protocoladas, que demandam cerca de R$ 914 milhões no total. Agora virá a filtragem: 12 serão escolhidas, que podem ser públicas ou privadas, mas precisam estar dentro de uma das três vertentes (bioeconomia florestal, desenvolvimento urbano e economia circular).
Para Bruno Aranha, diretor de crédito produtivo e socioambiental do BNDES, o edital pode alavancar projetos que contribuam para o desenvolvimento sustentável. “Com esse instrumento, conseguimos com um capital catalítico menor, destravar um volume mais elevado de recursos para ações socioambientais e engajar investidores que tradicionalmente não atuariam nesse tipo de negócio”, analisa.
O programa do BNDES é o primeiro a ser estruturado em nível nacional, mas outras iniciativas já estão sendo realizadas em âmbito regional. Em dezembro, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) assinou um acordo de 3 milhões de euros com a Agência Francesa de Desenvolvimento para criar um blended finance que contribua com o desenvolvimento de pequenos negócios no Estado.
Recentemente, a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), que congrega as agências de fomento e bancos de desenvolvimento estaduais, lançou um plano a ser cumprido até 2030 com propostas relacionadas aos ODSs da ONU e colocou o tema de blended finance em pauta. A associação sugeriu, por exemplo, a adequação de fundos já existentes aos critérios dos ODSs, além da criação de um fundo de aval específico para os objetivos. O fundo de aval oferece garantias complementares a quem vai emprestar para destravar acesso a capital.
Para o secretário-executivo da ABDE, José Luiz Gordon, a temática ainda exige maturação no mercado para ganhar mais adesão. “O tema é novo para todos. estamos aprendendo o que é blended finance. Mas temos interesse no tema, principalmente por enxergar como uma forma de mitigação de riscos de projetos de desenvolvimento sustentável.”
Aranha, do BNDES, acredita que a demanda reprimida tem ralação com a falta de projetos que diminuam o risco das operações. “Investidores estão mais engajados na agenda ESG e procuram oportunidades para alocação de recursos. Embora a demanda de recursos seja muito alta, dificilmente essas necessidades são apresentadas em um formato que atenda às diversas exigências que os participantes de mercado normalmente buscam, sem falar na questão do retorno financeiro”, analisa.
Para Maria Netto, especialista em estruturação financeira que hoje trabalha no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em Washington (EUA), diz que é preciso ainda mudança de maturidade por parte de quem topa entrar em uma operação de blended, independente de qual lado da equação. Isso passa, por exemplo, por entender que os projetos, pela sua característica de inovação e impacto, são de longo prazo, e exigem paciência. Ela exemplifica dizendo que o blended é um tipo de produto que é difícil seguir os ritos dos relatórios e indicadores tradicionais da filantropia, pois o impacto é percebido no longo prazo.
“A mudança não é só na forma de estruturar o instrumento e recursos – fazer o blended certo -, mas em como interagir com filantropias para orientar recursos de forma inteligente, para combinar com a necessidade do investimento”, pontua. “Recursos de filantropia que hoje vão para doações pontuais poderiam migrar para blendeds e multiplicar o impacto.” Hoje ainda é mais comum ter recursos vindo de organismos multilaterais, como o BID e a IFC, unidade de investimentos do Banco Mundial.

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