Fundos ‘criptonativos’ apertam controles e melhoram governança

Sofisticação coincide com o maior interesse do público e iniciativas de regulação José Vital, sócio da PwC: sofisticação da indústria de criptoativos cresce junto com a valorização do bitcoin
Divulgação
Fundos de investimento “criptonativos”, aqueles que já surgiram aplicando em bitcoin e ativos digitais, estão apertando os controles, melhorando a governança e adotando práticas de produtos tradicionais do mundo regulado, como contratação de custodiantes, administradores e auditores independentes, segundo estudo da PwC.
A guinada coincide com o maior interesse do público no universo dos criptoativos, particularmente após a valorização de 70% do bitcoin em 2021, e com as diversas iniciativas de regulação.
Nove em cada dez fundos hedge criptonativos têm auditores independentes. No estudo, feito entre março e abril, 82% tinham custodiante independente – na pesquisa anterior, eram 76%. Os gestores com conselheiros independentes subiram de 38% para 51%.
Apesar de comum na gestão de recursos tradicional, os serviços de custódia independente não são normais na indústria de criptoativos por questões de segurança das chaves privadas. Por essa limitação, os fundos têm a opção de fazer internamente a custódia das chaves. Uma forma cada vez mais utilizada é a gestão de “pedaços” das chaves e das carteiras digitais distribuídas em diferentes geografias e agentes custodiantes.
Segundo José Vital, sócio da PwC, a pesquisa identificou uma forte correlação entre o desenvolvimento e a sofisticação dessa indústria e a valorização do bitcoin. “Esses fundos crescem à medida que as criptomoedas se valorizam e diminuem proporcionalmente quando têm perdas. Mas hoje notamos que há diferentes estratégias para poder se posicionar de forma não necessariamente atrelada à performance das moedas.”
A estratégia mais comum de gestão é a que segue o desempenho do mercado, adotada por 30% dos fundos. Os quantitativos, geridos por algoritmos, somam 25% e os do tipo “long only”, que apostam na alta de determinados ativos, chegam a 14%.
Também cresceu a proporção dos gestores que negociam derivativos – aumentou de 56% para 69% este ano. Já 41,6% dos fundos especializados utilizam plataformas de finanças descentralizadas (as chamadas DeFi) para aumentar o rendimento dos portfólios, seja por meio de mineração, empréstimos e cessão de criptomoedas. E 78% dos fundos especializados aplicam em “tokens” que representam projetos de finanças descentralizadas.
No último ano, a maioria dos fundos especializados ampliou as equipes e contratou profissionais mais experientes. O número médio de profissionais dos times subiu de 7,6 para 9,6 pessoas. Somando os anos de experiência de todos os integrantes das equipes, a média saltou de 21 para 27 anos.
O estudo mostrou ainda uma leve diminuição na contratação de serviços de pesquisa de casas de análise independentes, que caiu de 47,2% para 45,9% dos respondentes. Segundo a PwC, isso pode ser resultado do aumento dos times “in-house” de análise.
Foi analisado ainda o interesse dos “hedge funds” tradicionais em criptoativos. O percentual dos que aplicam no setor subiu de 21% para 38%. A maioria dos que já aderiram aos ativos digitais ainda está tateando o terreno – 57% têm menos de 1% do total administrado.
Dos participantes, 31% dizem estar curiosos e aguardando maior amadurecimento desse mercado para fazer investimentos. A falta de clareza do regime regulatório e tributário é um dos principais desafios para 89% dos gestores que aplicam no setor. Quase um terço (27%) diz que aceleraria o investimento se as principais barreiras fossem removidas – eram 18% no ano anterior.
“Do lado do mundo tradicional, a principal preocupação é a incerteza regulatória. Do lado dos nativos, o problema é com o back-office – quem vai fazer a contabilidade, preparar as demonstrações financeiras e auditar. Na parte tributária, ainda não há uma clareza sobre como vai ser o tratamento”, disse Caio Arantes, sócio da PwC.
Para Vital, o estudo mostra que ainda há uma predominância dos indivíduos de altíssima renda e patrimônio nos ativos digitais, além de “family offices”. “Isso explica um pouco por que no Brasil os institucionais começam a oferecer produtos relacionados a criptoativos. Há uma demanda cada vez maior do mercado de ter alguma penetração nesse mundo. Por isso, vemos os bancos tradicionais se estruturando para oferecer esses produtos”, disse.
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