Ganha força a conexão entre cripto e mercado financeiro tradicional
Compra da gestora ParMais pela 2TM, holding que controla o Mercado Bitcoin, mostra como este movimento veio para ficar Os criptoativos estão cada vez mais no radar de investidores e gestores brasileiros. Conforme pesquisa recente feita pela consultoria Grimpa, mais de nove em cada dez (96%) pessoas conhecem bitcoin e 41% afirmam já terem feito investimentos em criptoativos, enquanto 75% esperam aumentar a quantia aplicada. Um movimento sem volta, que aponta para a crescente conexão entre o mercado financeiro do futuro e o tradicional, de fundos de investimento comuns.
Trata-se de uma tendência global e vem ganhando mais força também em meio à busca por diversificação nos portfólios por parte de pessoas físicas e investidores institucionais. Um dos principais benefícios dessa estratégia, segundo especialistas, é a chamada descorrelação entre os ativos, ou seja, a variação de preço de um independe de quanto oscila o preço de outro. Essa característica dos criptoativos tende a melhorar a relação entre risco e retorno ao longo do tempo.
A intersecção entre os dois mercados – o do futuro e o tradicional – vai além dos efeitos na carteira dos investidores. Tem a ver com a evolução tecnológica, a exemplo do avanço do blockchain e da tokenização, que começam a ganhar mais fôlego no setor financeiro. Ou seja, qualquer ativo digital pode utilizar este instrumento, não somente as criptomoedas.
“É como uma nova internet. A tecnologia por trás das criptomoedas cria um novo ambiente para se relacionar entre as partes. Uma forma de encurtar o caminho entre investidor e o emissor, reduzindo custos ligados à intermediação. Exemplo disso é o Pix, onde as transações não precisam ter vários intermediários [em comparação com os cartões]. Isso onerava o consumidor. A lógica é a mesma, mas voltada ao mercado de investimentos”, aponta Reinaldo Rabelo, CEO do Mercado Bitcoin, maior corretora de criptoativos da América Latina.
Para o executivo, é normal que o Brasil esteja um pouco atrasado em algumas tecnologias. “No mundo financeiro, processos disruptivos assustam, mas quanto mais se fala de criptomoedas, mais investidores ficam interessados e as instituições também”, afirma. De fato. O tema vem despertando atenção de bancos, gestoras e, claro, dos reguladores, como Banco Central (BC) e Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
De olho nesse movimento, a 2TM – holding que controla o Mercado Bitcoin – fechou a compra da ParMais, gestora de recursos de Florianópolis (SC) com mais de R$ 600 milhões sob seu guarda-chuva e mais de 1,5 mil clientes. O objetivo é utilizar a ParMais como uma plataforma para lançar uma série de fundos próprios de criptoativos, complementando a oferta de produtos para os investidores. “Vamos juntar experiências”, define Rabelo.
Em linha com uma demanda crescente no mercado doméstico, Rabelo aponta que fundos compostos por criptoativos já estão sendo estruturados e devem ser lançados ainda neste ano. Em agosto, por exemplo, a B3 permitiu que produtos atrelados indiretamente a criptos sejam registrados no mercado de balcão, por exemplo.
Na visão dele, os criptoativos por si só são seguros e transparentes, mas a familiaridade dos investidores com fundos de investimento comuns ou ETFs (sigla em inglês para fundos de índice) faz com que as pessoas tenham mais confiança em ingressar no mercado de cripto.
Para Annalisa Blando, CEO da ParMais – que continua à frente do negócio, mesmo com a aquisição de 100% pela 2TM –, os criptoativos funcionam uma reserva de valor, e a descorrelação com os ativos tradicionais permite atender ao ideal de diversificação que o mercado todo procura. “A demanda está enorme e [com a aquisição] vamos adquirir know how em criptoativos”, diz.
Um dos diferenciais da ParMais é a visão 360º do cliente. Na prática, a gestora não leva em consideração apenas o perfil de risco do investidor para montar as carteiras, mas também avalia o momento de vida, por exemplo, como estão os gastos do cliente, se a pessoa é solteira, se tem filhos, além dos seus objetivos de vida, como morar em outro país ou comprar um imóvel.
Annalisa comenta que neste início os clientes da ParMais poderão contar com os criptoativos em suas carteiras administradas, mas o percentual investido dependerá do perfil de cada cliente, podendo chegar a 25%, por exemplo, se o investidor for mais ‘agressivo’. “O mais importante é sempre ter uma reserva de segurança”, ressalta.

