MB demite cem funcionários e reposiciona equipes com agravamento da crise no setor cripto

É o segundo corte no ano do grupo 2TM, que vai priorizar segmentos anticíclicos que não dependam do desempenho das criptomoedas O Grupo 2TM, dono do MB (antigo Mercado Bitcoin), demitiu nesta quinta-feira cerca de cem funcionários e anunciou um reposicionamento das áreas de negócio para capturar sinergias das empresas adquiridas e priorizar produtos e infraestruturas de mercado que não dependam tanto do desempenho das criptomoedas, que perderam dois terços do valor desde o recorde em 2021. É o segundo corte de profissionais no grupo 2TM neste ano.
O novo corte atinge cerca de 15% dos funcionários e ocorre em todas as áreas e posições de back-office, como suporte e atendimento, no Brasil. Com as demissões, o grupo segue com cerca de 450 profissionais, ainda o maior do setor cripto no país. No final de maio, logo após o agravamento da crise no segmento com o colapso do sistema Terra Luna, o 2TM já tinha demitido 90 profissionais.
O grupo atribui a nova onda de demissões a uma necessidade de ajustar o quadro de funcionários para a nova realidade do mercado de criptoativos, que passa por forte desacelaração. Com a crise no setor, o 2TM deve priorizar segmentos da indústria de criptoativos considerados anticíclicos, como gestão de recursos, infraestrutura de serviços e tokenização de ativos, que em alguns casos reproduzem aplicações em renda fixa, beneficiadas atualmente pela alta de juros.
Segundo Roberto Dagnoni, CEO do 2TM, o grupo apostava que a aprovação do chamado Marco Cripto, que regulamenta as corretoras e os intermediários do segmento, desse um fôlego para incentivar as negociações de criptoativos no país. O projeto de lei foi aprovado em abril no Senado, mas só deve ser votado em plenário na Câmara depois das eleições.
“Fizemos aquele primeiro ajuste no final de maio e continuamos acompanhando o cenário macro. De lá para cá, não tivemos nenhuma sinalização de melhora, o que nos levou a tomar essa decisão. Não sabemos quanto tempo vai durar esse inverno cripto. É um momento triste, muito diferente do que aconteceu no ano passado, quando estávamos crescendo e contratando”, disse Dagnoni ao Valor.
Segundo o executivo, os funcionários desligados terão um pacote com extensão do plano de saúde, incluindo para os familiares, auxílio-creche, assinatura de serviços e assistência para recolocação, entre outros.
Dagnoni afirma que as demissões não estão relacionadas a pressões dos investidores, entre eles o Softbank, que aportou US$ 200 milhões no grupo no ano passado. Na ocasião, o 2TM obteve um valuation de US$ 2,1 bilhões, se tornando o primeiro unicórnio cripto do país. O executivo afirma que os fundos de venture capital têm dado suporte às decisões e ajudado com mentoria e intercâmbio de experiências, tecnologia e boas práticas de gestão desenvolvidas nas diferentes startups investidas.
No final de julho, o 2TM reorganizou o portfólio de produtos e verticais de negócios, até então dispostos de acordo com diferentes ativos digitais. Passou a ter segmentação de clientes _private, premium, traders, PRO _, além de tokenização, gestão de recursos e patrimônio e cripto as a service (CaaS) voltado a parceiros. No processo, passou também a capturar mais sinergias de receitas e custos das empresas adquiridas nos últimos anos.
O executivo disse que o 2TM não deve fazer mais cortes neste ano. “Obviamente, estamos fazendo esse movimento agora para não ter que fazer outros. Quanto antes ocorre o ajuste melhor fica a gestão do futuro”, disse.
Na entrevista para comentar as demissões, Dagnoni fez uma análise das perspectivas para o setor cripto no Brasil que, apesar da crise, tem visto a entrada de novos players _caso de Nubank, XP, BTG Pactual, PicPay, além do Itaú com sua própria tokenizadora. Ele afirmou que são todos bem-vindos e que trabalham conjuntamente para divulgar o setor. “É o Nubank falando para 60 milhões de pessoas sobre bitcoin e o ETH. A educação da base está endereçando o mercado como um todo”, disse.
Por outro lado, o executivo se mostrou pessimista como o avanço da regulação no país e do que chama de uma competição injusta com as exchanges estrangeiras, que não têm o mesmo grau de exigências de reportes locais, pagamento de impostos e compromissos assumidos de autorregulação para proteção dos consumidores.
“Esperávamos uma evolução relevante do ambiente regulatório brasileiro. Nos estruturamos muito para ser uma empresa totalmente regulada e agora vemos o PL Cripto sendo postergado. É uma pena porque vemos todos esses casos de pirâmide, garimpo ilegal, PCC, sempre com operações feitas por players não regulados, que não estão pagando impostos, não têm CNPJ aqui e não declaram nada para a Receita Federal. É uma competição bastante injusta para quem faz tudo certinho”, disse Dagnoni.
O executivo lembrou que foi surpreendido nesta semana pela decisão do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) de suspender o canal por meio do qual as corretoras de criptomoedas informam operações financeiras que consideram suspeitas. Esse tipo de informe, obrigatório para o setor financeiro de forma geral, é opcional para esse segmento, mas considerado uma boa prática recomendada entre as maiores do setor.
“É inacreditável, um retrocesso do pouco que existia de boas práticas de reportar operações suspeitas, que a gente já fazia espontaneamente. Isso só aumenta a assimetria regulatória e deixa o ambiente competitivo desequilibrado”, disse.

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