Parcela de endividados bate recorde e número de inadimplentes é o maior em 12 anos, diz CNC
De acordo com a entidade, a parcela de famílias que se declararam endividadas ficou em 76,6% em fevereiro, acima de janeiro (76,1%) e de fevereiro de 2021 (66,7%) A parcela de famílias endividadas bateu recorde em fevereiro e a proporção de famílias endividadas e com contas em atraso, no mês passado, registrou maior fatia em 12 anos, segundo leitura da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Nesta quinta-feira (3), a entidade divulgou a Pesquisa Nacional de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). De acordo com a entidade, a parcela de famílias que se declararam endividadas, na pesquisa, ficou em 76,6% em fevereiro, acima de janeiro (76,1%) e de fevereiro de 2021 (66,7%). O número foi o maior da série histórica da pesquisa, iniciada em 2010, para esse tópico.
Além disso, a parcela de endividados que informaram contas em atraso ficou em 27% em fevereiro, acima de janeiro (26,4%) e de fevereiro de 2021 (24,5%), sendo a mais elevada desde março de 2010 (27,3%).
No caso das famílias inadimplentes que declararam não ter condição de quitar seus débitos, a parcela em fevereiro na pesquisa ficou em 10,5%, acima de janeiro (10,1%). Foi, ainda, igual a de fevereiro de 2021, sendo a mais alta desde agosto de 2021 (10,7%).
Alta dos juros
Em nota sobre a pesquisa, o presidente da CNC, José Roberto Tadros, avalia que a escalada dos juros, que encarece o crédito, dificulta renegociação de dívidas.
O panorama mostra que, na margem, o custo do crédito mais elevado e o próprio endividamento alto entre as pessoas que vivem no mesmo domicílio dificultam a contratação de novas dívidas e o pagamento dos compromissos na data de seus vencimentos”, disse Tadros, em comunicado.
Para a economista da CNC responsável pela pesquisa, Izis Ferreira, o encarecimento do crédito no Brasil e a fragilidade apontada no mercado de trabalho devem seguir afetando a dinâmica do endividamento e da inadimplência dos consumidores, especialmente em ano de maior incerteza pelo processo eleitoral.
Consideramos necessárias e relevantes as alternativas que suportem o pagamento dos compromissos financeiros assumidos e a renegociação das dívidas ou contas não pagas, alertou, no informe sobre a pesquisa.
Mais uma vez, o cartão de crédito foi a modalidade mais citada pelos endividados, na pesquisa, sendo lembrado por 86,5% em fevereiro, do total dos que se declararam com dívidas. As segunda e terceira posições foram registradas por carnês (19,9%) e financiamento de carro (11,7%).
A parcela de endividados que informaram contas em atraso ficou em 27% em fevereiro, acima de janeiro (26,4%) e de fevereiro de 2021 (24,5%), sendo a mais elevada desde março de 2010 (27,3%)
Andrew Khoroshavin / Pixabay
Inflação aumenta o risco de inadimplência
A inflação pressionada no país e com viés de alta, tendo em vista o atual conflito na Ucrânia, com o já elevado patamar de endividamento das famílias é um risco ao avanço da inadimplência este ano, alertou Izis Ferreira.
A economista comentou que sinais do atual quadro começaram no fim do ano passado, na passagem de outubro para novembro. Mas que o quadro realmente se agravou no começo deste ano. “Houve um aumento brusco de famílias endividadas em fevereiro.”
Ela disse que a escalada na taxa de juros básicos, a taxa Selic, pelo Banco Central (BC), torna muito mais difícil o consumidor se endividar mais. Ao longo de 2021, o brasileiro usou empréstimos para lidar com orçamento do dia a dia – mas o mesmo, com patamar de juros mais elevado, torna-se mais difícil este ano, notou ela.
A situação é mais grave entre os mais pobres, acrescentou ela. Segundo a técnica, na Peic, a parcela de famílias endividadas, com ganhos de até 10 salários mínimos e que informaram contas em atraso, passou de 29,7%, em janeiro, para 30,3%, em fevereiro. Foi a maior fatia de inadimplentes para essa faixa de renda desde o começo da pesquisa, alertou a economista.
“Hoje não tem mais espaço para se endividar mais e nem para ter mais dívida” resumiu. “E continuamos a ver disseminada a inflação de alimentos na nossa economia” afirmou, acrescentando que isso, na prática, afeta mais a cesta básica do mais pobre, onde os alimentos têm mais peso no orçamento.
E, agora, a guerra na Ucrânia piorou ainda mais o contexto inflacionário, acrescentou a economista. Analistas já projetam alimentos mais caros, devido às dificuldades logísticas causadas pelo conflito em acesso a alimentos. No mercado global, as regiões da Rússia e da Ucrânia são intensivas em produção de trigo, centeio e aveia. Outro aspecto é a disparada no preço do petróleo, por conta da guerra, que eleva os preços de derivados, como gasolina e diesel, adiantou.
No entendimento da especialista, é preciso acompanhar de perto, agora, a evolução financeira das famílias, e o impacto dos recentes acontecimentos geopolíticos na economia mundial, nos preços domésticos. O que poderia contribuir, neste momento, é a nova sinalização do governo federal para o saque no FGTS, que ajudaria a compor o orçamento familiar. Mas a economista admitiu que não há como saber, com certeza, se seria suficiente para lidar com as obrigações totais do consumidor endividado.
“Ninguém quer ter a inadimplência aumentando. É ruim para o banco, para o consumidor e para a economia. É uma situação negativa para todos. Temos que pensar como isso não irá se tornar um problema no médio prazo e buscar alternativas.”

