Tokenização chega a fundos de crédito com recebíveis e consórcio
Produto regulado, FIDC tradicional cede parte dos fluxos de adiantamentos para digitalização Tradicional fonte de recursos de empresas por meio de adiantamento de receitas, os fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) começam a se valer da “tokenização” para ampliar o público investidor e as possibilidades de financiamento.
A gestora Iguana Investimentos criou um fundo de direitos de crédito tradicional que cede parte dos fluxos financeiros dos recebíveis para tokenização. No caso, os pagamentos dizem respeito a receitas de uma atacadista do setor de consumo – o nome não foi divulgado.
Uma vez transformados em tokens, esses contratos ficam disponíveis para negociação de potenciais interessados como um produto de renda fixa que paga uma taxa, por exemplo, de 18% ao ano. O FIDC, que é um veículo regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) voltado a investidores qualificados ou profissionais, continua detentor dos ativos reais, enquanto os compradores do token poderão usufruir dos direitos econômicos desses ativos.
A operação é a primeira envolvendo tokens por meio de um FIDC no mercado brasileiro. A novidade foi desenvolvida pela FIDD Group, empresa de serviços financeiros que faz administração, custódia e distribuição de fundos de investimento, junto com a MB Tokens, braço de tokenização de ativos da 2TM.
Outro fundo, gerido pela Ouro Preto Investimentos, envolve cotas de consórcio não contempladas que os participantes desistiram antes do término do prazo.
Normalmente, quem deixa um consórcio no meio do caminho precisa esperar até o fim do prazo, depois de todos os demais serem contemplados, para receber o dinheiro aportado, o que pode demorar anos. Algumas empresas e investidores, no entanto, compram essas cotas com um deságio significativo para adiantar o dinheiro ao consorciado desistente.
O fundo da Ouro Preto, que é destinado a investidores qualificados, compra essas cotas e tokeniza o ganho obtido com esse deságio, que varia de acordo com o prazo até o final do contrato. Nesse caso, o fundo só trabalha com cotas de primeira linha, como dos bancos Santander e Volkswagen, considerados de baixo risco de crédito.
Para Pedro Salmeron, CEO e cofundador da FIDD, a estrutura de FIDC fornece uma camada de governança adicional no processo de tokenização, valendo-se da cadeia fiduciária regulada e já estabelecida no mercado de capitais brasileiro. “É uma ponte entre o mercado tradicional de fundos de investimento e o mundo dos criptoativos”, disse.
“Conseguimos democratizar o acesso a investimentos alternativos muito parecidos com uma renda fixa tradicional, mas que se diferenciam pela alta rentabilidade dada a tecnologia aplicada”, disse Vitor Delduque, diretor de novos negócios da MB Tokens.
Maior tokenizadora do país, a MB Tokens já emitiu R$ 162 milhões em certificados digitais, disponíveis para transação em sua plataforma de investimentos. Até o final deste ano, a tokenizadora espera chegar a R$ 600 milhões em produtos digitais colocados nesse mercado.
Um dos contratos mais populares envolvendo tokens dizem respeito a precatórios alimentares, que são dívidas do setor público originadas de processos salariais e previdenciários após decisão final da Justiça e sem possibilidade de recurso. Nesses casos, os direitos financeiros dos precatórios são divididos em centenas do tokens que vão para plataformas de negociação. Dos R$ 162 milhões emitidos pela MB, quase R$ 30 milhões de tokens se referem a precatórios, sendo a maioria da categoria alimentar.

